sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O trem que saía do metrô era o último daquele dia.

Na plataforma ao longo de todo o último mês o jovem vira a mesma jovem


Que invariavelmente embarcava vestindo o mesmo uniforme da mesma loja

E percorriam juntos e em silêncio o caminho entre o bairro e o centro da cidade.

Mas

O trem que saía do metrô era o último daquele dia.

E para o jovem era o último daquela temporada também.

Era de outra região e estava na grande capital a trabalho, retornando no dia seguinte para casa.

Observara durante todo o mês a mulher jovem e bonita, à distância, enquanto esperavam

O último trem do metrô do dia.

Observara seus cabelos ruivos, suas sardas sobre o nariz e abaixo dos olhos, sua pela clara e seu sorriso bonito.

Observara seu uniforme, de uma loja ao lado do seu local de trabalho e se intrigara pela

Estranha coincidência de sempre pegarem o mesmo trem no mesmo horário...

Observara a jovem mulher um dia alegre, outra dia triste, num dia chorosa, em outro dia falante, com uma amiga, um dia ausente, outro dia pensativa, um dia com fome, comprara um salgado frio da último vendedor da estação, outro dia encalorada prendera os cabelos atrás da cabeça revelando uma pinta na nuca graciosa e atraente, habituara-se tanto a vê-la que já a aguardava chegar, algumas vezes apressada mas no mais das vezes tranquila, enquanto aguardavam o último trem da noite, que os levaria para a cidade...

O trem que saía do metrô era o último daquele dia.

Na plataforma ao longo de todo o último mês o jovem a observara, sempre de uniforme e não tivera a oportunidade de lhe dirigir a palavra.

Na verdade até tivera,notara um ou outro olhar curioso, olhar interrogador sobre a pasta do notebook, sobre o paletó do terno, sobre o relógio que usava,sentira os olhos sobre ele quando recebera alguma mensagem no celular ou quando um transeunte perguntara alguma informação percebera que ela se voltara para observa-lo enquanto falava com o estranho.

Mas

O trem que saía do metrô era o último daquele dia.

E naquele dia ambos estavam absortos em profundos pensamentos, o jovem retornaria para casa no dia seguinte e se dera conta de que nem o nome da jovem mulher sabia.

Pensara em perguntar, pensara em não perguntar, sentira-se curioso e atraído por aquela bela e jovem mulher mas de alguma forma não quisera (ou pudera) se aproximar e falar com ela, se apresentar, perguntar seu nome, acabara passando o mês todo observando-a discretamente...

Mas

O trem que saía do metrô era o último daquele dia.

Quando ele parou os passageiros embarcaram e no término da viagem, no centro da cidade, onde o jovem descia para ir para o hotel onde estava hospedado, desceu e olhou para dentro do trem e a jovem mulher lhe deu o sorriso mais belo que já vira em toda a sua vida...

No dia seguinte ele voltou para sua região de origem e nunca mais retornou para a grande capital...

Mas

Em alguns dias, como hoje, trinta anos depois destes acontecimentos, quando vê uma jovem mulher com cabelos ruivos em uma estação aguardando um transporte qualquer, não consegue evitar de pensar sobre o que teria acontecido se tivesse voltado a pegar

Uma vez mais

O trem que saía do metrô e era o último daquele dia...

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