segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A muda de romã

Trouxe da casa de meus pais,
em Palmeiras de Goiás, uma fruta hoje difícil de encontrar, uma romã,
que acabei plantando algumas sementes em alguns vasos que cultivamos
na pequeno espaço entre a loja e a casa em que vivemos, na capital de nosso estado, Goiânia.

A semente de romã brotou e uma arvorezinha começou a crescer, a cada dia mais forte.

Neste final de semana tivemos o início do horário de verão nos estados do centro-oeste, sul e sudeste.

Por causa dele acordei no domingo mais cedo, preocupado com perder a hora de regar as plantinhas dos vasos que cultivamos em casa.

E imaginem a minha surpresa ao regar o pé de romã e sentir o mesmo cheiro da terra molhada com vento nas folhas de minha cidade natal, Palmeiras de Goiás...

Entendi que a terra que eu trouxe da casa de meus pais, a muda que retirei da fruta que mamãe me deu e o carinho que dedicamos aquela plantinha que vai rompendo seu caminho no mundo recriaram as condições de minha infância, recriaram a minha cidade de Palmeiras de Goiás, lá do final dos anos 70 e início dos anos 80 e que até aquele momento somente vivia em minhas memórias...

Entendi também que passe o tempo que passar, nunca me esquecerei de minha cidade natal e de todas as amizades que lá deixei.

Naquele domingo, aquela pequena muda de romã era toda a minha cidade!

E vocês não podem imaginar o tanto que eu fiquei feliz com isto...

Em 2008 a AFFEGO fez uma homenagem a meu avô Sabino Matias de Souza.

Aqui publico a resposta de nossa família a esta lembrança:

Nossa familia acha louvável a iniciativa do Presidente da AFFEGO e ex-Presidente do Sindifisco Admar Cornélio Otto de homenagear os membros do Fisco que já faleceram, numa iniciativa que merece nossos melhores elogios.


Nossa família sente muito orgulho de nosso Pai e avô SABINO MATIAS DE SOUZA, nascido em Rezende – RJ em 03 de julho de 1908 , criado no interior de São Paulo , que veio trabalhar na cidade de Palmeiras de Goiás em 1939, como vendedor de Maquinas de Costura SINGER, casou com a Sra. Zilda Gomes de Souza, teve 6 filhos, Irenio Gomes de Souza, Jose Matias de Souza, Zaira Gomes de Paula, Elisabeth Gomes de Souza Lopes, Alfa Gomes de Souza Oliveira e Sabino Matias de Souza Junior e faleceu num sábado de carnaval, no dia 21 de fevereiro de 1993.

Entre estas datas de nascimento e falecimento, tivemos uma pessoa generosa, Inteligente, querida, bondosa, que sempre ajudou os carentes e necessitados, e sempre nos dizia que o que a mão esquerda faz a mão direita não precisava ficar sabendo. Discreto, viveu sua vida com dignidade, sem buscar o brilho dos holofotes, dedicando-se a sua família, seus filhos e netos, que eram o que mais gostava neste mundo.

Ocupou vários cargos em sua vida, foi fiscal de renda, teve militância política, sempre querendo ajudar sua comunidade e fez inúmeras amizades ao longo de sua vida, engrandecendo a nossa querida cidade de Palmeiras de Goiás.

Aceitamos com carinho esta homenagem , que ao momento em que nos mostra a curta duracão da vida humana também nos demonstra que as pessoas boas, humanas e sinceras não serão esquecidas, mesmo depois de seu desaparecimento.

Nosso mais sincero Muito Obrigado e Parabéns por esta bela iniciativa.



Família de SABINO MATIAS DE SOUZA

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O trem que saía do metrô era o último daquele dia.

Na plataforma ao longo de todo o último mês o jovem vira a mesma jovem


Que invariavelmente embarcava vestindo o mesmo uniforme da mesma loja

E percorriam juntos e em silêncio o caminho entre o bairro e o centro da cidade.

Mas

O trem que saía do metrô era o último daquele dia.

E para o jovem era o último daquela temporada também.

Era de outra região e estava na grande capital a trabalho, retornando no dia seguinte para casa.

Observara durante todo o mês a mulher jovem e bonita, à distância, enquanto esperavam

O último trem do metrô do dia.

Observara seus cabelos ruivos, suas sardas sobre o nariz e abaixo dos olhos, sua pela clara e seu sorriso bonito.

Observara seu uniforme, de uma loja ao lado do seu local de trabalho e se intrigara pela

Estranha coincidência de sempre pegarem o mesmo trem no mesmo horário...

Observara a jovem mulher um dia alegre, outra dia triste, num dia chorosa, em outro dia falante, com uma amiga, um dia ausente, outro dia pensativa, um dia com fome, comprara um salgado frio da último vendedor da estação, outro dia encalorada prendera os cabelos atrás da cabeça revelando uma pinta na nuca graciosa e atraente, habituara-se tanto a vê-la que já a aguardava chegar, algumas vezes apressada mas no mais das vezes tranquila, enquanto aguardavam o último trem da noite, que os levaria para a cidade...

O trem que saía do metrô era o último daquele dia.

Na plataforma ao longo de todo o último mês o jovem a observara, sempre de uniforme e não tivera a oportunidade de lhe dirigir a palavra.

Na verdade até tivera,notara um ou outro olhar curioso, olhar interrogador sobre a pasta do notebook, sobre o paletó do terno, sobre o relógio que usava,sentira os olhos sobre ele quando recebera alguma mensagem no celular ou quando um transeunte perguntara alguma informação percebera que ela se voltara para observa-lo enquanto falava com o estranho.

Mas

O trem que saía do metrô era o último daquele dia.

E naquele dia ambos estavam absortos em profundos pensamentos, o jovem retornaria para casa no dia seguinte e se dera conta de que nem o nome da jovem mulher sabia.

Pensara em perguntar, pensara em não perguntar, sentira-se curioso e atraído por aquela bela e jovem mulher mas de alguma forma não quisera (ou pudera) se aproximar e falar com ela, se apresentar, perguntar seu nome, acabara passando o mês todo observando-a discretamente...

Mas

O trem que saía do metrô era o último daquele dia.

Quando ele parou os passageiros embarcaram e no término da viagem, no centro da cidade, onde o jovem descia para ir para o hotel onde estava hospedado, desceu e olhou para dentro do trem e a jovem mulher lhe deu o sorriso mais belo que já vira em toda a sua vida...

No dia seguinte ele voltou para sua região de origem e nunca mais retornou para a grande capital...

Mas

Em alguns dias, como hoje, trinta anos depois destes acontecimentos, quando vê uma jovem mulher com cabelos ruivos em uma estação aguardando um transporte qualquer, não consegue evitar de pensar sobre o que teria acontecido se tivesse voltado a pegar

Uma vez mais

O trem que saía do metrô e era o último daquele dia...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

As últimas neves do Kilimanjaro


As últimas neves do Kilimanjaro

Perdeu 85 por cento da sua cobertura branca no último século e tudo indica que, dentro de dez anos, não terá neve alguma. Culpa do aquecimento global, mas não só. Chama-se Kilimanjaro e é o pico mais alto de África.


Surge num claro recorte no horizonte, mesmo ainda a quilómetros de ser alcançado. Imponente, esmagador, numa paisagem dominada pela savana. No Norte da Tanzânia, junto à fronteira com o Quénia, foi um vulcão e é hoje um dos ícones de África, para o que também contribuiu esse notável conto de Ernest Hemingway, intitulado precisamente As neves do Kilimanjaro. O Monte ainda lá está. As neves também, mas são hoje menos 85% do que em 1900. E desde 2000 até hoje, a sua redução foi de 26%. Segundo diversos estudos, dentro de dez anos simplesmente vão desaparecer.


Em 1900 o seu cume apresentava 12 quilómetros quadrados de neve. Hoje são apenas dois. Rapidamente o fenómeno do aquecimento global apareceu como o grande culpado pela situação. Mas o desenvolvimento de mais estudos, as análises ao gelo e às rochas permitiram levantar outras hipóteses que também podem ter contribuído para este resultado, como a sua atividade vulcânica ou mesmo o abate de árvores.


Uma das conclusões mais recentes a que se chegou foi a de que a cobertura de neve nunca foi tão pequena nos últimos 11.700 anos, inclusive nas épocas de seca severa, que duraram mais de 300 anos – há quatro mil anos houve um período de três séculos de seca, mas nunca a neve ficou reduzida aos níveis atuais. E um dos glaciares do Kilimanjaro, o Furtwangler, perdeu nos últimos dez anos metade da sua espessura, facto que preocupa seriamente os cientistas.


Mas a grande explicação para o sucedido é mesmo remetida ao aumento das temperaturas junto à superfície, bem como a aumentos ainda maiores na atmosfera interior. Tem sido esta a razão, documentada nas últimas décadas, que tem provocado o degelo. «O facto de tantos glaciares nos trópicos e subtrópicos estarem a sofrer os mesmos efeitos sugere uma causa comum», avança ao jornal inglês The Guardian Lonnie Thompson, da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, um dos cientistas que investigou o problema. «No futuro haverá um ano em que veremos o Furtwangler e no ano seguinte terá desaparecido completamente», adianta.





No topo, de telemóvel


O monte é constituído por uma cadeia de vulcões, com os três principais denominados Shira, Mawenzi e Kibo. Hoje sabe-se que o Kilimanjaro tem 5891,8 metros de altura. Certinhos. Em 2008, uma equipa liderada pelo português Rui Fernandes, investigador do Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa, efetuou a medição mais precisa de sempre, através de GPS. É também, curiosamente, o ponto mais alto do mundo com cobertura GSM para telemóveis.


O seu simbolismo, a sua imponência e as florestas circundantes, que possuem uma fauna rica, incluindo diversas espécies ameaçadas de extinção, levam ao Kilimanjaro cerca de 40 mil turistas por ano. Alguns milhares tentam subir ao topo, utilizando no percurso vários postos para acampamento. Embora as consequências do frio e da falta de ar provocados pela altitude sejam um problema a enfrentar, não é propriamente necessário ser-se um alpinista para atingir o cume. É desde 1973 um Parque Nacional e desde 1987 Património da Humanidade, depois de já ter sido considerado pelo Governo colonial alemão uma reserva de caça, nos princípios do século XX.


Ernest Hemingway tem em As Neves do Kilimanjaro um dos seus mais bonitos e entusiasmantes livros. Publicado pela primeira vez em 1936, as suas páginas revelam-nos diversos contos, entre os quais o que dá título ao livro, e que também já foi adaptado, em 1952, ao cinema, com as envolventes interpretações de Gregory Peck e Ava Gardner. Harry Street, um escritor, é gravemente ferido durante um safari. Uma gangrena deixa-o numa situação desesperada, e é junto da sua mulher da altura que vai recordando os seus antigos amores e os livros que escreveu. É numa luta pela própria sobrevivência que Streeet nos faz chegar, entre delírios e quase sempre de uma forma intensa, vários episódios da sua vida.


Uma luta pela sobrevivência que hoje é das neves do Kilimanjaro, e que tudo indica está condenada ao fracasso. Caso Hemingway escrevesse a sua obra em 2020, o seu título seria outro, ou o mais certo era nem ter tido inspiração para o escrever, tão fascinante se torna aquela visão branca em plano continente africano. Resta agora esperar que um qualquer fator improvável inverta a tendência natural e os prognósticos dos cientistas. Missão impossível, diz quem sabe.





Artigo originalmente publicado no nº 50, edição de Março 2011 do Africa 21

por Miguel Correia